A Coragem e a Arrogância

por
Beto Pandiani
22/12/2016

Ao se lançar ao mar, o marinheiro deve saber aonde ele quer chegar, e ele tem isso bem claro. Ele também sabe do seu propósito ao partir.

Ao encontrar uma tempestade no meio do caminho, as suas habilidades vão ser testadas ao limite, e aonde o mar encontrar a sua fraqueza, lá será travada uma batalha. Passado o mau tempo um dia o barco chegará à segurança do porto. Feliz e com um forte sentimento de vitória, o marinheiro olhará para trás e agradecerá ao mar. Sabemos que bons marinheiros são forjados nos mares tempestuosos, e por saber disso ele reconhece a oportunidade.

Ele sabe que a tormenta tem um propósito, e também não se esquece do seu. Se não fosse o caos, quem daria a ele a referência e a noção do melhor? Como ele aprenderia a lidar com o imponderável, e como ele poderia dormir no aconchego da sua cama, ou mesmo dar valor a um prato quente de comida?

Em certo momento da vida do navegador, ele para de julgar o mar, o vento forte, a marejada, os cortes nas mãos e as noites mal dormidas. Ele simplesmente aceita tudo, e aprende que cabe a ele buscar seus recursos internos, e toda sua experiência para viver a vida entre os elementos. Sem viver o caos, ele nunca aprenderia sobre o discernimento, e sem o discernimento ele jamais saberia como fazer suas escolhas, e assim nunca saberia como tomar uma decisão, e sem tomar decisões, ele jamais chegaria onde ele sabe que tem que chegar.

Mostrando às crianças Ianomamis um livro sobre a floresta.

Navegamos muitas vezes sem rumo e nos esquecemos aonde queremos chegar. Nos negamos a vivenciar todas as experiências, por simplesmente não entendermos a natureza dos acontecimentos. Por isso quando o caos se apresenta nos apressamos em julgar. Julgamos quem nos fere, julgamos o mundo, julgamos aqueles que erram e nos julgamos. Nos esquecemos de que a dificuldade mora ao lado da superação, pois ela tem a tarefa de nos dar a referência de onde estamos, e de onde podemos chegar.

Foram necessários navegar 5.500 milhas de rios pela Floresta Amazônica. Nesta foto o Rio Orinoco.

Em tempos de crise como estamos vivendo, a postura deveria ser de transformação, criatividade, determinação e fé.

De nada adianta nos colocarmos na condição de vítimas, pois esta consciência tem acompanhado a humanidade há séculos, e ela tem nos tornado reféns das nossas próprias atitudes.

A tempestade é a mais perfeita oportunidade que o caos nos oferece. Deveríamos agradecer ao invés de nos queixarmos.

Em se tratando de viagens, a viagem mais perigosa é aquela em que não sabemos aonde queremos chegar, e tão importante quanto saber o destino é saber como vamos realizá-la.

Sistema de comunicação internet via satélite em 1994.

Em relação a embarcações, eu recomendo viajar leve, e levar o estritamente necessário, pois quem vai mais leve vai mais longe. Para a vida a regra é a mesma. Podemos ir muito mais longe do que pensamos, e com recursos que nunca imaginamos.

Porém quando estamos nos preparando para partir devemos fazer escolhas do que levar e do que deixar.

Índia Ianomâmi e seus adornos faciais.

Existem coisas primordiais que não pesam, e na minha maneira de ver jamais devem ser esquecidas. Podemos carregar os nossos barcos com toneladas de sonhos. Devemos levar também o ideal, a honestidade, a honra, o compromisso espiritual, a compaixão, o respeito, a atitude amorosa, a confiança, a fé com toda a nossa humanidade.

Tão importante quanto saber onde queremos ir, é saber como vamos fazer a nossa travessia. Todo barco que parte tem que chegar, pois a tempestade é a nossa escola que tem, como na natureza, a habilidade de moldar os nossos valores.

O vídeo acima apresenta a parte 1 de Travessia do Pacífico com um link para uma página dedicada que terá todas as partes.

Links que complementam este conteúdo:
O gosto pela aventura corre nas veias de Beto Pandiani. Com mais de 20 anos de experiência em navegação, já desafiou os mais temidos mares do mundo à bordo de um catamarã sem cabine.
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